Pelo terceiro ano consecutivo, Sepot apoia a realização das Quiolimpíadas Malhadinha em Brejinho de Nazaré que, este ano, completa uma década
Os jogadores de futebol entrarão em campo, neste fim de semana, para mais uma disputa acirrada entre equipes de seis comunidades quilombolas. No peito, o orgulho de ser quilombola e uniformes desenhados especialmente para a 10ª edição da Quiolimpíadas Malhadinha, apresentando elementos visuais característicos da cultura quilombola. O evento, que inicia nesta sexta-feira, 29, a partir das 19 horas, na Comunidade Quilombola Malhadinha, localizada na zona rural de Brejinho de Nazaré, conta com o apoio do Governo do Tocantins, por meio das secretarias de Estado dos Povos Originários e Tradicionais (Sepot) e dos Esportes e Juventude (Seju).
As Quiolimpíadas nasceram como jogos internos da Comunidade Quilombola Malhadinha e foram conquistando outras comunidades do estado. Nesta edição, que comemora uma década, são esperadas cerca de 3 mil pessoas, entre competidores e visitantes. Além dos atletas da comunidade realizadora, já confirmaram presença as comunidades vizinhas Curralinho do Pontal, Córrego Fundo e Manoel João. Como visitantes, o evento terá duas comunidades da região do Jalapão: Barra da Aroeira e Ouro Preto.
O professor Esmaylson Pereira de Souza, que faz parte da comissão organizadora, destaca que, mais do que uma competição esportiva, o evento tem como proposta promover a inclusão das pessoas, fortalecer os laços entre as comunidades quilombolas e perpetuar conhecimentos e saberes que fazem parte do cotidiano, como o trabalho na roça e na cozinha. “Essa característica de união de esforços reflete na própria estrutura do evento, que não cobra taxa de inscrição, e os participantes recebem todas as refeições e se acomodam em um grande acampamento, montado na sombra das árvores, com a garantia do suporte e hospitalidade dos moradores”, ressalta.
Para esta edição, o Governo do Tocantins repassou à comissão organizadora equipamentos esportivos, entre eles bola, rede e apito, oito kits de uniformes para as comunidades e material de divulgação, além do suporte logístico e água para os atletas.
Da lida diária à competição
O professor Esmaylson Pereira de Souza explica que as provas que trazem atividades características do cotidiano dos territórios são o coração do evento. “Essas provas servem para valorizar nossa tradição e incentivar os mais jovens a reconhecer a importância do modo de vida que estão presentes ainda hoje e manter a cultura viva”, enfatiza. Destacam-se as provas do Feixe de Lenha e de Pilar o Arroz, que valorizam a experiência das pessoas mais velhas; e a da baladeira, também conhecida como estilingue.
No Feixe de Lenha, cada representante das comunidades recebe um feixe, uma corda e um pedaço de pano, conhecido como rudia. Dentro do tempo determinado, o competidor deve arrumar a carga e transportar por alguns metros, na cabeça, sem o uso das mãos. A rudia, um pano enrolado sobre a cabeça, serve como apoio e proteção. E saber como colocar e usar é o grande segredo do desafio. “A brincadeira representa o ato de ir buscar lenha e transportar da roça até a casa, como se fazia antigamente”, detalha o professor Esmaylson Pereira de Souza.
Na prova de Pilar o Arroz, os competidores precisam ter muito mais do que agilidade, devem saber a técnica de pilar o arroz e também as características da matéria-prima. O arroz utilizado na prova é produzido pelo vô Cassimiro que, aos 80 anos, não deixa de plantar sua roça de toco.
Já o Circuito 2.0 Power traz seis modalidades, com provas inspiradas na lida da roça de toco, uso do fogo e desafios que exigem força, equilíbrio e conhecimento. A prova Tora de Pau faz alusão ao tronco durador, que era usado na época em que não havia energia elétrica para manter o fogo aceso durante a noite, garantindo que, no dia seguinte, o fogo pudesse ser novamente reavivado para o uso na cozinha e outras necessidades.
Esportes clássicos
Neste sábado, 30, durante todo o dia, serão realizadas as competições de esportes clássicos, como futebol, vôlei e atletismo – corrida de 100 metros, revezamento 4×4 e salto em distância. A disputa de embaixadinhas também faz parte da programação.
Tradição e cultura
Nas duas noites do evento, uma programação cultural rica e diversificada deve animar o público. Cada comunidade participa espontaneamente dos eventos, com apresentações típicas, entre elas, a Folia do Divino e a Sussa.
No sábado, 30, parte das atividades valem pontos na competição geral, entre elas, os concursos de forró raiz, de poesias e o desfile de beleza negra.
Carta aberta
Na manhã de domingo, 31, serão premiadas as comunidades vencedoras e um momento mais reflexivo faz parte da programação. Os participantes se reúnem no formato roda de conversa para compartilhar os desafios dos seus territórios. No fim, uma carta aberta, escrita à mão, é assinada pelos presentes e segue como documento para instâncias afins, caso seja pontuada alguma demanda que careça de resposta do poder público, como infraestrutura e saneamento, por exemplo. “Desta forma, buscamos apoiar e resolver os problemas das nossas comunidades”, salienta o professor Esmaylson Pereira de Souza.
Edição: Victória Milhomem
Revisão Textual: Marynne Juliate
Conhecimento e técnica são indispensáveis na prova de Pilar o Arroz – Manoel Júnior/Governo do Tocantins
Saber limpar o arroz, depois de pilado, também requer conhecimento que vem sendo repassado entre as gerações – Manoel Júnior/Governo do Tocantins
O estilingue, que já foi arma de caça, hoje é instrumento para acertar o alvo – Manoel Júnior/Governo do Tocantins
Na comemoração de 10 anos da Quiolimpíadas, o uniforme das equipes de futebol apresenta elementos característicos da cultura quilombola – Manoel Júnior/Governo do Tocantins
A competição de vôlei misto é bastante disputada entre as comunidades quilombolas – Manoel Júnior/Governo do Tocantins
A prova do pneu, no Circuito 2.0 Power, remete à força necessária para remover troncos de árvores e grandes objetos no preparo da terra para o plantio – Manoel Júnior/Governo do Tocantins
Competição clássica das olimpíadas também está presente na competição quilombola – Manoel Júnior/Governo do Tocantins
O esporte mais popular dos brasileiros também é o queridinho nas Quiolimpíadas – Manoel Júnior/Governo do Tocantins





